As “coisas novas” de dois tempos históricos
Em 1891, o Papa Leão XIII publicou a Carta Encíclica Rerum Novarum, expressão latina que significa “Das coisas novas”. O documento nasceu num período de profundas transformações econômicas e sociais provocadas pela Revolução Industrial. O crescimento das fábricas, a mecanização da produção, a expansão das cidades e a consolidação do capitalismo estavam modificando rapidamente a vida das pessoas. Ao mesmo tempo que aumentavam a capacidade produtiva e a riqueza, essas mudanças submetiam milhões de trabalhadores e trabalhadoras a jornadas exaustivas, salários insuficientes, moradias precárias e condições desumanas de trabalho (cf. MH, nn. 30-31).
Naquele contexto, muitos defendiam que a Igreja deveria cuidar apenas das questões espirituais e não se envolver nos problemas econômicos, sociais e políticos. Leão XIII, porém, compreendeu que o anúncio do Evangelho não poderia permanecer indiferente ao sofrimento dos trabalhadores. Se a pessoa humana é criada à imagem de Deus, tudo aquilo que ameaça sua vida, sua liberdade e sua dignidade também interessa à missão da Igreja (cf. MH, nn. 3 e 17-20).
A Rerum Novarum denunciou a exploração dos operários e afirmou princípios que se tornariam fundamentais para a Doutrina Social da Igreja: a dignidade do trabalho, o direito a um salário justo, a proteção da família, o direito de associação dos trabalhadores, a responsabilidade social da propriedade e o dever do Estado de proteger os mais vulneráveis. A Igreja entrava, assim, de maneira sistemática, no debate sobre as grandes questões sociais da modernidade (MH, nn. 29-31).
Vivemos novamente uma mudança de época. Plataformas digitais, algoritmos, robôs, sistemas automatizados e inteligências artificiais estão modificando o trabalho, a educação, a comunicação, a política, a economia e as relações humanas. Essas tecnologias oferecem grandes possibilidades, mas também produzem novos riscos (MH, nn. 4-6). Por isso, a pergunta central da Magnifica Humanitas não é apenas o que as máquinas serão capazes de fazer, mas que tipo de humanidade estamos construindo por meio delas (cf. MH, nn. 1, 6 e 90-91).
Da máquina industrial ao poder dos algoritmos
Na época da Rerum Novarum, as máquinas industriais transformavam o modo de produzir. Hoje, as tecnologias digitais transformam não somente a produção, mas também a maneira de pensar, comunicar, decidir e organizar a sociedade. Os algoritmos selecionam as notícias que recebemos, indicam os produtos que devemos consumir, avaliam trabalhadores, distribuem tarefas, estabelecem preços e influenciam decisões políticas (cf. MH, nn. 95-96, 101-103 e 132-138).
A inteligência artificial pode contribuir para o diagnóstico de doenças, a pesquisa científica, a tradução de idiomas, a educação, a acessibilidade das pessoas com deficiência e o cuidado da Casa Comum. Pode realizar tarefas perigosas, repetitivas e cansativas, melhorando as condições de trabalho. A encíclica não assume, portanto, uma posição contrária à ciência ou ao desenvolvimento tecnológico. Ela reconhece que a técnica é uma realidade profundamente humana e pode contribuir para melhorar as condições de vida (MH, nn. 4, 93 e 100-101; cf. n. 152).
Entretanto, nenhum avanço técnico representa automaticamente um progresso humano. Uma sociedade pode possuir máquinas mais eficientes e, ao mesmo tempo, tornar-se mais desigual. Pode produzir uma quantidade maior de riquezas, mas concentrá-las nas mãos de poucos. Pode ampliar as formas de comunicação e, paradoxalmente, aumentar o isolamento, a desinformação e a intolerância. Pode criar sistemas capazes de imitar a linguagem humana, mas enfraquecer o encontro, a escuta e o cuidado entre as pessoas (cf. MH, nn. 94-96, 100, 132-142 e 239-240).
Por isso, Leão XIV afirma que as novas tecnologias necessitam de um enquadramento espiritual, ético, social e político. A técnica não pode estabelecer sozinha seus objetivos e limites. Também não pode ficar subordinada exclusivamente ao lucro das grandes empresas. A inteligência artificial precisa permanecer sob a responsabilidade das pessoas, das instituições democráticas e da sociedade (MH, nn. 93-96 e 102-106).
A verdadeira questão não é somente tecnológica. É uma questão humana e política: quem controla a tecnologia? Com quais objetivos? Quem recebe seus benefícios? Quem suporta seus custos? Quem participa das decisões? Quem permanece excluído? Essas perguntas são necessárias porque o poder tecnológico está concentrado, em grande parte, nas mãos de grandes atores econômicos que controlam plataformas, infraestruturas, dados e capacidades de processamento (cf. MH, nn. 5, 71-72 e 95-96).
A Magnifica Humanitas recorda que o desenvolvimento tecnológico deve ser julgado a partir de suas consequências sobre a vida concreta das pessoas, especialmente dos pobres, dos trabalhadores e dos grupos socialmente vulneráveis (MH, nn. 77-85 e 240).
O trabalho diante da revolução digital
O trabalho ocupa uma posição central tanto na Rerum Novarum quanto na Magnifica Humanitas. No final do século XIX, o grande problema era a exploração do trabalhador pelo sistema industrial. Atualmente, essa exploração não desapareceu, mas assumiu novas formas (MH, nn. 148-150).
A automação e a inteligência artificial podem substituir determinadas atividades humanas. Algumas profissões desaparecerão, outras serão profundamente modificadas e novas ocupações surgirão. Entretanto, os benefícios dessa transformação não estão sendo distribuídos igualmente. Enquanto algumas empresas aumentam a produtividade e acumulam lucros extraordinários, muitos trabalhadores enfrentam desemprego, insegurança, informalidade e perda de direitos (cf. MH, nn. 150-153).
As plataformas digitais apresentam-se frequentemente como simples intermediárias entre consumidores e prestadores de serviços. Na prática, porém, seus algoritmos podem determinar o valor do pagamento, distribuir as tarefas, controlar o tempo, avaliar o desempenho e até desligar unilateralmente o trabalhador. Motoristas, entregadores e outros profissionais trabalham aparentemente com autonomia, mas permanecem submetidos a formas invisíveis de comando e vigilância (cf. MH, nn. 150, 154-156).
Surge, assim, um novo tipo de patrão: o algoritmo. Ele não possui rosto, não explica seus critérios e dificilmente permite contestação. O trabalhador não sabe por que recebeu menos tarefas, por que sua avaliação caiu ou por que foi excluído da plataforma. Essa expressão é uma aplicação à realidade da chamada gestão algorítmica da advertência da encíclica sobre trabalhadores submetidos à vigilância automatizada e às exigências das máquinas (cf. MH, nn. 150 e 154-156).
A tecnologia, que poderia servir para tornar o trabalho mais digno, passa a ser utilizada para intensificar a exploração e transferir os riscos econômicos das empresas para os trabalhadores. Para evitar essa inversão, os sistemas tecnológicos precisam ser concebidos tendo a pessoa como centro, e não apenas o desempenho e a produtividade (MH, n. 150).
A Magnifica Humanitas reafirma que o trabalho humano não é uma simples mercadoria nem um custo a ser eliminado. Trabalhar não significa somente receber um salário. Pelo trabalho, a pessoa participa da criação, desenvolve suas capacidades, sustenta sua família, estabelece relações de cooperação e contribui para o bem comum (MH, nn. 148-149).
A economia deve estar a serviço da pessoa, e não a pessoa a serviço da economia. A inteligência artificial precisa libertar o ser humano das formas degradantes de trabalho, e não descartar trabalhadores considerados pouco produtivos. A tecnologia pode e deve aliviar as pessoas das tarefas pesadas, repetitivas ou perigosas, mas a proteção dos postos de trabalho e o reconhecimento do papel insubstituível da pessoa devem permanecer como princípios fundamentais (MH, n. 152).
Quando uma tecnologia aumenta a riqueza coletiva, seus benefícios devem alcançar toda a sociedade. A inovação precisa ser orientada para a prosperidade compartilhada, a redução das desigualdades e a dignidade do trabalho, e não apenas para o crescimento dos lucros (cf. MH, nn. 157-165).
Isso exige políticas públicas capazes de garantir proteção social, formação profissional, redução das desigualdades e uma transição justa para os trabalhadores atingidos pela automação. Os custos da adaptação tecnológica não podem ser simplesmente transferidos para os indivíduos e suas famílias (MH, nn. 153-156).
Exige também o fortalecimento dos sindicatos e das organizações coletivas, para que os trabalhadores possam participar das decisões sobre a introdução de novas tecnologias nos locais de trabalho. A subsidiariedade e a participação exigem que as decisões não sejam monopolizadas por poucos atores econômicos, mas incluam as comunidades e os grupos diretamente afetados (cf. MH, nn. 71-72 e 155-156).
Leão XIII defendeu o direito dos operários de se organizarem diante do poder das indústrias. Leão XIV atualiza esse princípio para uma realidade em que o poder econômico está concentrado nas plataformas digitais e nas grandes empresas tecnológicas (cf. MH, nn. 30-31, 71-72 e 95-96).
Uma tecnologia submetida ao bem comum
A revolução digital não acontece num espaço neutro. Ela se desenvolve dentro de uma economia marcada pela concentração da riqueza e do poder. Poucas empresas controlam grandes quantidades de dados, redes de comunicação, sistemas de inteligência artificial e infraestruturas digitais. Esse poder ultrapassa fronteiras e, muitas vezes, torna-se maior do que a capacidade de fiscalização dos próprios Estados (MH, nn. 71-72 e 95-96).
As empresas podem conhecer os hábitos, interesses, deslocamentos e relacionamentos de milhões de pessoas. Com essas informações, conseguem prever comportamentos, direcionar publicidade, influenciar escolhas e selecionar quais conteúdos serão vistos. Os dados pessoais tornam-se uma nova fonte de riqueza e poder (cf. MH, nn. 95-96, 132-140 e 178).
Entretanto, as informações sobre a vida das pessoas não podem ser tratadas apenas como propriedade privada das empresas. A Doutrina Social da Igreja ensina que a propriedade possui uma função social e que os bens da criação se destinam a todos. Esse princípio também deve iluminar a realidade digital (MH, nn. 64-68).
O conhecimento produzido coletivamente, os dados das populações e os benefícios da inovação não podem permanecer monopolizados por pequenos grupos. A tecnologia deve contribuir para o bem comum, ampliar direitos e oferecer oportunidades aos mais pobres (cf. MH, nn. 59-63, 71-72 e 95-96).
Caso contrário, poderá surgir um novo colonialismo, no qual países e populações fornecem dados, minerais e mão de obra, enquanto a riqueza e o poder permanecem concentrados nos grandes centros tecnológicos. A encíclica adverte que o colonialismo contemporâneo também se manifesta pela apropriação de informações sanitárias, genéticas e demográficas, transformando os dados das populações em instrumentos de controle e exploração (MH, nn. 178-179).
A Magnifica Humanitas também questiona a ideia de que o mercado seja capaz de resolver sozinho esses problemas. A busca pelo lucro não garante a justiça social. Na era da inteligência artificial e da robótica, já não é possível confiar apenas na “mão invisível” do mercado. Cabe à política orientar as transformações econômicas e tecnológicas para o bem comum, proteger o trabalho digno e promover uma distribuição equitativa dos benefícios da inovação (MH, nn. 157-165, especialmente n. 163).
Isso não significa entregar todo o controle ao Estado. Significa reconhecer a responsabilidade conjunta dos governos, empresas, universidades, comunidades, trabalhadores e organizações sociais. As decisões tecnológicas precisam ser transparentes, democráticas e socialmente fiscalizadas (cf. MH, nn. 71-72, 102-106 e 180-181).
Permanecer humanos
A grande preocupação de Leão XIV é que o ser humano não se torne vítima de suas próprias conquistas. A inteligência artificial pode imitar certas atividades da inteligência humana, mas não possui consciência, liberdade ou responsabilidade moral. Não conhece interiormente a alegria, a dor, o amor, a amizade ou a solidariedade. Não pode assumir a culpa por uma decisão nem responder pelas consequências de seus atos (MH, nn. 98-100).
A inteligência artificial pode imitar palavras de conselho, empatia, amizade e amor. Essa comunicação pode parecer útil e gratificante, mas não constitui uma verdadeira relação pessoal. Quando a palavra é simulada, mas não encarnada, existe apenas uma aparência de relação (MH, n. 100).
Por isso, decisões graves e irreversíveis não podem ser simplesmente entregues às máquinas. A responsabilidade deve permanecer sempre humana. Isso vale para a seleção de trabalhadores, a concessão de crédito, o atendimento de saúde, o acesso aos serviços e a proteção da reputação das pessoas (MH, nn. 102-105). Vale, de maneira ainda mais grave, para as decisões relacionadas à guerra e ao uso da força, pois uma máquina jamais pode receber o poder de decidir autonomamente sobre a vida e a morte (cf. MH, nn. 196-199).
A encíclica não propõe interromper o desenvolvimento tecnológico, mas orientá-lo. Seu chamado é para que permaneçamos profundamente humanos (MH, nn. 13-14). Quanto mais poderosas se tornam as máquinas, maior deve ser nossa responsabilidade ética. Quanto mais rápidas são as transformações, mais necessário se torna o discernimento. Quanto maior for o poder das empresas e dos governos, mais forte deve ser a participação da sociedade (cf. MH, nn. 5-6, 71-72 e 102-106).
Nesse sentido, a Magnifica Humanitas pode ser considerada uma nova Rerum Novarum. Ela não repete simplesmente o documento de 1891, mas prolonga sua inspiração. As máquinas mudaram, as formas de produção se transformaram e o poder assumiu novos rostos. Entretanto, a pergunta fundamental permanece: a economia e a tecnologia estão a serviço da pessoa humana ou a pessoa está sendo sacrificada em nome do lucro e da eficiência? (cf. MH, nn. 3-6, 90-96 e 148-165).
A Igreja diante das novas realidades
Assim como no tempo de Leão XIII, alguns podem afirmar que essas questões não pertencem à missão da Igreja. No entanto, a fé cristã não permite separar o amor a Deus do compromisso com a vida concreta das pessoas. A Igreja não pode limitar a religião à intimidade individual nem permanecer indiferente à saúde das instituições e aos acontecimentos que afetam a vida dos cidadãos (MH, nn. 17-20).
Jesus anunciou o Reino de Deus curando os enfermos, acolhendo os excluídos, defendendo os pequenos e devolvendo dignidade àqueles que eram desprezados. A justiça social é, portanto, uma forma concreta de seguir Jesus e permanecer fiel ao Evangelho (MH, nn. 77-79).
A Igreja não possui todas as respostas técnicas para os problemas da inteligência artificial. Sua missão é oferecer uma visão da pessoa humana, escutar o clamor dos pobres e contribuir para que a ciência, a economia e a política sejam orientadas pelo bem comum. Ela reconhece a autonomia das realidades sociais, políticas e científicas e procura dialogar com os diferentes conhecimentos, oferecendo princípios para o discernimento, e não um conjunto pronto de soluções técnicas (MH, nn. 20-24).
Essa tarefa pertence especialmente aos cristãos leigos e leigas que atuam nas empresas, universidades, escolas, sindicatos, movimentos sociais, meios de comunicação e espaços políticos. Eles são chamados a levar os princípios da Doutrina Social da Igreja para o cotidiano, as relações familiares, o trabalho e a participação social (MH, n. 47).
As comunidades cristãs também precisam preparar-se para essa missão. Devem promover formação sobre inteligência artificial, educação para o uso responsável das redes, defesa dos direitos dos trabalhadores e participação nos debates públicos sobre tecnologia. Precisam escutar os trabalhadores afetados pela automação e pela uberização, apoiar suas organizações e denunciar as novas formas de exploração (cf. MH, nn. 180-181 e 237-240).
Ao mesmo tempo, a própria Igreja deve examinar como utiliza as tecnologias. Não pode denunciar a manipulação das pessoas e utilizar irresponsavelmente seus dados. Não pode defender a transparência na sociedade e conservar estruturas internas marcadas pela falta de participação.
A Doutrina Social da Igreja não é apenas uma palavra dirigida à sociedade, mas também um exame de consciência para a própria comunidade eclesial. A Igreja deve cultivar a sinodalidade, a transparência, a prestação de contas, a avaliação das responsabilidades e a participação real dos batizados nos processos de decisão (MH, nn. 86-89).
Seu testemunho será verdadeiro quando viver em suas relações aquilo que anuncia ao mundo. Somente assim poderá mostrar à sociedade que a busca corresponsável e fraterna do bem comum não é uma utopia, mas uma possibilidade concreta (MH, n. 89).
Construir uma magnífica humanidade
A mensagem da Magnifica Humanitas não é de medo, mas de esperança e responsabilidade. O futuro tecnológico não está completamente determinado. Ele será resultado das decisões econômicas, políticas, culturais e espirituais que tomarmos no presente (cf. MH, nn. 15-16 e 229-242).
Podemos construir uma nova Babel, colocando a inteligência artificial a serviço do domínio, da acumulação e da guerra. Mas também podemos reconstruir Jerusalém, fazendo da tecnologia um instrumento de participação, solidariedade, justiça e paz (MH, nn. 7-10, 90-91 e 241-242).
A magnífica humanidade não é uma humanidade sem limites, transformada em máquina ou submetida à busca da eficiência perfeita. É a humanidade criada à imagem de Deus, revelada plenamente em Jesus Cristo e chamada a viver em comunhão (MH, nn. 48-50 e 107-129).
O verdadeiro progresso não acontece quando as máquinas se aproximam dos seres humanos, mas quando os seres humanos se tornam mais fraternos, livres, solidários e responsáveis. Uma tecnologia será verdadeiramente avançada quando ajudar a vencer a fome, proteger os trabalhadores, cuidar da Casa Comum, ampliar o acesso à saúde e à educação e construir a paz (cf. MH, nn. 80-85, 101, 152, 180-181 e 237-240).
A Rerum Novarum ensinou que a industrialização deveria ser submetida à dignidade do trabalhador. A Magnifica Humanitas ensina que a revolução digital também deve ser submetida à dignidade da pessoa humana (cf. MH, nn. 3-4, 30-31 e 148-165).
Diante das “coisas novas” do nosso tempo, a missão permanece a mesma: colocar a economia, a política, a ciência e a tecnologia a serviço da vida. Somente assim poderemos construir não apenas máquinas mais poderosas, mas uma sociedade verdadeiramente humana, justa e fraterna (cf. MH, nn. 229-245).