A sociedade como um grande canteiro de obras
A Carta Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, apresenta a sociedade como um grande canteiro de obras. Cada geração recebe uma realidade que já foi construída por aqueles que vieram antes, mas também assume a responsabilidade de transformá-la e entregá-la às gerações futuras. Ninguém começa a história do princípio e ninguém atravessa o mundo sem deixar marcas (cf. MH, nn. 1-2, 11-12 e 229).
As escolhas que fazemos, os valores que cultivamos e as instituições que organizamos contribuem para construir um determinado tipo de sociedade. A economia, a política, a educação, a comunicação e a tecnologia não funcionam isoladamente. Todas elas expressam um projeto de humanidade (cf. MH, nn. 5-6, 90-96 e 130).
Na era da inteligência artificial, esse processo tornou-se ainda mais rápido e complexo. Os sistemas digitais interferem no modo como trabalhamos, consumimos, aprendemos, comunicamos e participamos da vida política. Decisões tomadas hoje poderão afetar profundamente a liberdade, os direitos e as relações humanas nas próximas décadas (MH, nn. 4-6, 90-91 e 101-106).
A pergunta central não é somente o que estamos inventando, mas o que estamos construindo por meio dessas invenções. Uma sociedade mais eficiente não é necessariamente mais justa. Uma economia mais produtiva não é automaticamente mais solidária. Uma comunicação mais rápida não significa que as pessoas estejam mais próximas (cf. MH, nn. 6, 84-85, 94 e 229).
Para iluminar esse discernimento, Leão XIV recupera duas imagens bíblicas relacionadas à construção: a torre de Babel, narrada no livro do Gênesis, e a reconstrução das muralhas de Jerusalém, apresentada no livro de Neemias (MH, nn. 7-10 e 90-91).
As duas obras exigem organização, conhecimento, recursos e trabalho. Entretanto, são orientadas por valores diferentes. Babel nasce da concentração do poder e do desejo de domínio. Jerusalém é reconstruída por meio da participação, da corresponsabilidade e da esperança (MH, nn. 7-10).
Essas duas cidades representam projetos que continuam presentes na história. A cada geração precisamos escolher: edificaremos uma nova Babel ou participaremos da reconstrução de Jerusalém? (cf. MH, nn. 1, 10, 90-91 e 229-242).
Babel: a construção do poder e do domínio
O relato de Babel encontra-se no capítulo 11 do livro do Gênesis. Depois do dilúvio, os seres humanos se estabelecem numa planície e decidem construir uma cidade e uma torre cujo topo chegue até o céu. Eles dizem:
“Vamos construir para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja o céu. Assim, faremos para nós um nome e não seremos dispersos por toda a terra” (Gn 11,4).
À primeira vista, o projeto parece revelar união, capacidade de organização e progresso técnico. As pessoas aprenderam a fabricar tijolos e desenvolveram recursos para realizar uma grande obra coletiva. O problema não está na técnica nem na construção. Está no desejo que orienta o projeto (cf. MH, n. 7).
Os construtores querem fazer para si mesmos um nome. Procuram segurança por meio da grandeza, da concentração e do controle. A torre representa uma humanidade que deseja ocupar o lugar de Deus, dominar o futuro e tornar-se autossuficiente (MH, n. 7).
O projeto de Babel também nega a diversidade. Todos devem permanecer reunidos sob uma única linguagem e dentro de um único sistema. Não há espaço para diferentes povos, culturas, experiências ou caminhos. A unidade deixa de ser comunhão entre pessoas diferentes e transforma-se em uniformização imposta pelo poder (cf. MH, n. 7).
A torre é grande, mas as pessoas tornam-se pequenas. O texto bíblico não menciona seus nomes, suas famílias ou suas necessidades. Elas aparecem somente como força de trabalho mobilizada para realizar o projeto. Os construtores deixam de ser sujeitos e tornam-se peças de uma obra destinada a engrandecer o poder coletivo (cf. MH, nn. 7 e 92-96).
Essa é uma das características de Babel: a obra torna-se mais importante do que as pessoas que a constroem. O instrumento deixa de servir ao ser humano, enquanto a pessoa é reduzida a uma engrenagem de um sistema orientado pela eficiência e pelo domínio (cf. MH, nn. 92-94).
A mesma lógica pode aparecer em diferentes momentos da história. Grandes impérios, sistemas econômicos e projetos políticos prometeram progresso e segurança, mas utilizaram seres humanos como instrumentos. Trabalhadores foram explorados, povos foram colonizados, culturas foram destruídas e vidas foram sacrificadas para aumentar a riqueza e o poder de poucos (cf. MH, nn. 171-179 e 185-199).
Babel não pertence apenas ao passado. Ela ressurge sempre que a técnica, a economia ou a política são utilizadas para concentrar poder e transformar pessoas em objetos (cf. MH, nn. 90-96 e 182-199).
A nova Babel digital
A revolução digital oferece possibilidades extraordinárias. Entretanto, ela também pode gerar uma nova Babel, mais ampla e invisível do que aquela descrita no livro do Gênesis (cf. MH, nn. 90-96).
Atualmente, poucas corporações controlam grande parte das redes de comunicação, dos bancos de dados, das plataformas digitais e dos sistemas de inteligência artificial. Essas empresas possuem informações sobre os hábitos, os interesses, os deslocamentos e as relações de bilhões de pessoas (MH, nn. 71-72 e 95-96).
Esse poder não depende somente da riqueza econômica. Quem controla os dados e os algoritmos pode influenciar aquilo que vemos, pensamos e escolhemos. Pode estabelecer quais informações terão maior visibilidade, quais opiniões serão promovidas e quais pessoas receberão oportunidades (MH, nn. 71-72, 95-96 e 132-140).
A torre de Babel era construída com tijolos. A nova Babel é construída com dados. Esta imagem permite compreender a advertência da encíclica sobre a concentração das infraestruturas, dos dados e da capacidade de processamento nas mãos de grandes atores econômicos e tecnológicos (cf. MH, nn. 71-72, 95-96 e 178).
Cada pesquisa, compra, deslocamento, mensagem ou fotografia pode ser recolhida e transformada em informação comercial. A pessoa deixa de ser apenas usuária da tecnologia e passa a ser também produto. Seu tempo, sua atenção e seu comportamento são transformados em mercadoria (cf. MH, nn. 136-142 e 169-170).
Os algoritmos podem organizar o acesso ao emprego, ao crédito, aos serviços públicos, à saúde e à educação. Quando esses sistemas não são transparentes, as pessoas podem ser avaliadas e classificadas sem conhecer os critérios utilizados. Um cidadão pode ter um direito negado por uma decisão automatizada que não consegue compreender ou contestar (MH, nn. 102-106 e 164).
A promessa de personalização pode esconder formas profundas de controle. A plataforma aprende aquilo de que gostamos, mas também utiliza esse conhecimento para orientar nosso consumo, prolongar nosso tempo de uso e influenciar nossas decisões (cf. MH, nn. 136-142 e 169-170).
A nova Babel digital também cria uma linguagem aparentemente universal. As mesmas plataformas, imagens, produtos e comportamentos circulam pelo mundo. Isso pode aproximar diferentes povos, mas também pode enfraquecer culturas, conhecimentos e experiências locais (cf. MH, nn. 71-72 e 135-142).
Quando uma única lógica tecnológica se apresenta como inevitável, as comunidades perdem a capacidade de imaginar outros caminhos. O desenvolvimento deixa de ser uma construção democrática e transforma-se num processo determinado pelas empresas que possuem maior poder econômico e tecnológico (cf. MH, nn. 71-72, 95-96 e 105-106).
Quando o progresso esquece os trabalhadores
Babel manifesta-se também quando o progresso material é construído sobre a exploração dos trabalhadores. Na era digital, muitas atividades apresentadas como automáticas dependem de uma enorme quantidade de trabalho humano escondido (cf. MH, nn. 148-156 e 179).
Há trabalhadores que extraem os minerais necessários para fabricar aparelhos eletrônicos. Outros montam equipamentos em extensas cadeias produtivas. Há pessoas que organizam e classificam dados para treinar sistemas de inteligência artificial, muitas vezes recebendo baixos salários e permanecendo invisíveis aos consumidores. A encíclica chama a atenção para milhões de trabalhadores envolvidos na etiquetagem de dados, moderação de conteúdos e treinamento de modelos, entre os quais estão muitos jovens e mulheres que recebem remunerações mínimas (MH, nn. 174 e 179).
Motoristas, entregadores e prestadores de serviços são coordenados por plataformas que controlam o ritmo, a remuneração e a distribuição do trabalho. O algoritmo aparece como uma estrutura neutra, mas organiza relações marcadas por desigualdade de poder (cf. MH, nn. 150 e 154-156).
A pessoa trabalha, mas não conhece quem decide. Recebe ordens, mas não pode dialogar com o responsável. É avaliada constantemente, mas dificilmente consegue avaliar a plataforma. Pode ser excluída do sistema sem receber uma explicação clara (cf. MH, nn. 102-106 e 154-156).
Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser instrumento de libertação e transforma-se em mecanismo de vigilância e controle. O trabalhador é reduzido a dados de produtividade, tempo de resposta, avaliações e metas. A encíclica adverte que os trabalhadores podem ser obrigados a adaptar-se à velocidade e às exigências das máquinas, submetidos à vigilância automatizada e relegados a funções rígidas e repetitivas (MH, n. 150).
A construção de Babel exige muitos braços, mas celebra apenas o nome dos poderosos. Os trabalhadores permanecem anônimos, enquanto os proprietários das plataformas acumulam riqueza e reconhecimento (cf. MH, nn. 95-96, 150 e 174).
A Magnifica Humanitas convida a interromper essa lógica. A inovação não pode ser avaliada apenas pelos lucros que produz. É necessário considerar as condições de trabalho, a distribuição dos benefícios, os impactos sociais e a participação daqueles que realizam concretamente a produção (MH, nn. 150-165).
Jerusalém destruída: a realidade que encontramos
A segunda imagem utilizada pela encíclica encontra-se no livro de Neemias. Jerusalém estava destruída, suas muralhas permaneciam em ruínas e seus habitantes viviam em situação de insegurança e humilhação (MH, n. 8).
Ao receber notícias da cidade, Neemias não permanece indiferente. Ele se senta, chora, jejua e reza diante de Deus. Antes de construir, Neemias deixa-se atingir pelo sofrimento do povo (MH, n. 8).
Esse primeiro gesto é fundamental. Nenhuma reconstrução verdadeiramente humana começa com máquinas, projetos ou recursos financeiros. Ela começa com a capacidade de enxergar a realidade, escutar o sofrimento e deixar-se tocar pela dor das pessoas (cf. MH, nn. 8-10, 215-218 e 241).
Também hoje encontramos muitas muralhas sociais destruídas. Milhões de pessoas vivem sem moradia digna, trabalho protegido, alimentação suficiente, acesso à saúde e educação de qualidade. Comunidades inteiras enfrentam violência, abandono e destruição ambiental (cf. MH, nn. 77-85).
As relações sociais também estão feridas. Crescem a desconfiança, a polarização política, a intolerância e a dificuldade de diálogo. As redes digitais, que poderiam favorecer o encontro, muitas vezes ampliam a agressividade e criam grupos fechados, nos quais cada pessoa escuta apenas aqueles que pensam da mesma maneira (cf. MH, nn. 132-142, 203-207 e 237-240).
A primeira tarefa de quem deseja reconstruir Jerusalém é reconhecer essas ruínas. Não podemos apresentar soluções tecnológicas para problemas sociais sem escutar aqueles que sofrem. Nenhum sistema será justo se for planejado apenas a partir dos escritórios das grandes empresas, distante das comunidades e dos trabalhadores (cf. MH, nn. 71-72, 78, 180-181 e 241).
Neemias ensina que a reconstrução começa pela escuta, pela oração e pelo reconhecimento da realidade (MH, nn. 8-10 e 241).
Uma reconstrução feita por muitas mãos
Neemias não reconstrói Jerusalém sozinho. Ele convoca a população, organiza os grupos e distribui responsabilidades. Cada família assume uma parte da obra. Sacerdotes, artesãos, comerciantes, mulheres, jovens e moradores participam da reconstrução (MH, nn. 8-9).
O texto bíblico faz questão de registrar os nomes e os grupos envolvidos. Ao contrário de Babel, onde os trabalhadores desaparecem atrás da grandeza da torre, em Jerusalém cada participante é reconhecido (cf. MH, nn. 8-9).
A obra não pertence a um governante, a uma empresa ou a um especialista. É responsabilidade de toda a comunidade. Jerusalém renasce por meio da responsabilidade partilhada de todo o povo, numa obra que reconstrói as relações antes mesmo das pedras (MH, n. 9).
Essa imagem ilumina o princípio da participação. Os problemas produzidos pela revolução digital não podem ser resolvidos exclusivamente pelos engenheiros, empresários ou governos. Toda a sociedade precisa participar das decisões sobre o desenvolvimento e a utilização da tecnologia (cf. MH, nn. 71-72, 180-181 e 239-241).
Os trabalhadores precisam ser ouvidos quando uma empresa introduz sistemas capazes de modificar ou eliminar suas funções. Os professores devem participar da definição dos usos da inteligência artificial na educação. Os profissionais da saúde precisam avaliar os riscos e as possibilidades das decisões automatizadas. As famílias e as comunidades devem ser incluídas nas discussões sobre a proteção das crianças no ambiente digital (cf. MH, nn. 143-147, 153-156 e 180-181).
A participação não significa rejeitar o conhecimento especializado. Significa reconhecer que o conhecimento técnico não é suficiente para decidir o que é justo, necessário e desejável. Uma tecnologia pode funcionar perfeitamente e, mesmo assim, produzir consequências sociais injustas (cf. MH, nn. 20-24 e 102-106).
Reconstruir Jerusalém significa reunir diferentes saberes e experiências. A ciência, a ética, a política, a espiritualidade e o conhecimento popular precisam dialogar na busca do bem comum (cf. MH, nn. 20-24, 59-63 e 180-181).
As muralhas que protegem sem excluir
A imagem das muralhas de Jerusalém pode causar uma dificuldade. Muralhas normalmente representam divisão, fechamento e separação. Entretanto, na leitura proposta pela Magnifica Humanitas, elas não simbolizam barreiras contra outros povos. Representam a reconstrução das condições necessárias para que uma comunidade ferida possa viver com dignidade e segurança (cf. MH, nn. 8-10 e 242).
Na visão final da encíclica, a nova Jerusalém não é uma cidade fechada. Suas portas permanecem abertas a todas as nações, e a presença de Deus oferece luz e vida para todos. Por isso, a reconstrução das muralhas não legitima exclusões, mas convida a superar as divisões e trabalhar conjuntamente (MH, n. 242).
Em nosso tempo, precisamos construir proteções capazes de defender as pessoas diante dos abusos tecnológicos. Essas proteções incluem:
- leis que garantam a privacidade e o cuidado com os dados pessoais;
- normas que responsabilizem as empresas;
- transparência nos sistemas automatizados;
- direito de contestar decisões tomadas por algoritmos;
- proteção dos trabalhadores diante da vigilância digital;
- cuidado especial com crianças e adolescentes;
- proibição de armas autônomas;
- participação democrática nas decisões tecnológicas.
Essas exigências aparecem nos apelos da encíclica por normas jurídicas adequadas, supervisão independente, responsabilização, proteção das pessoas vulneráveis e controle humano sobre as decisões tecnológicas (cf. MH, nn. 102-106, 143-147, 150-156, 169-170 e 196-199).
Essas medidas não pretendem impedir o desenvolvimento científico. Assim como uma casa necessita de paredes e portas para proteger seus moradores, a sociedade precisa de limites éticos e jurídicos para impedir que a tecnologia seja utilizada contra a dignidade humana. O apelo à prudência, à fiscalização e, quando necessário, ao abrandamento na adoção de determinados sistemas não significa ser contrário ao progresso, mas exercer uma proteção responsável da família humana (MH, n. 106).
A ausência de regulamentação não significa liberdade para todos. Frequentemente, significa liberdade para os mais poderosos imporem suas regras. Sem proteção pública, os indivíduos permanecem sozinhos diante de grandes corporações que possuem recursos econômicos e informações muito superiores (cf. MH, nn. 71-72, 95-96 e 105-106).
As muralhas de Jerusalém representam, portanto, a defesa da comunidade e dos mais frágeis. Devem proteger sem excluir, acolher sem dominar e favorecer uma convivência orientada pela justiça (cf. MH, nn. 9-10, 77-79 e 242).
A oposição dos poderosos
A reconstrução de Jerusalém encontra resistências. Alguns grupos procuram ridicularizar Neemias, desanimar o povo e interromper a obra. Eles percebem que a reconstrução modificará as relações de poder existentes (MH, nn. 8-9).
Toda transformação social enfrenta resistências semelhantes. Aqueles que se beneficiam da desigualdade dificilmente aceitam mudanças que limitem seu poder. As empresas podem apresentar qualquer regulamentação como ameaça à inovação. Os grupos econômicos podem afirmar que os direitos trabalhistas impedem o crescimento. Os governos podem utilizar o discurso da segurança para justificar a vigilância das populações (cf. MH, nn. 95-96, 105-106, 157-165 e 169-170).
A Magnifica Humanitas ensina que é necessário discernir os interesses escondidos por trás das promessas tecnológicas. Nem tudo aquilo que é anunciado como moderno, inevitável ou eficiente favorece o bem comum (cf. MH, nn. 92-96 e 104-106).
Essa vigilância não nasce do medo da tecnologia, mas da consciência de que todo poder precisa de limites. Quanto maior for a capacidade de uma tecnologia de influenciar a vida das pessoas, maior deverá ser a responsabilidade daqueles que a controlam (cf. MH, nn. 5-6, 95-96 e 102-106).
O povo que reconstrói Jerusalém precisa permanecer unido. Da mesma maneira, trabalhadores, organizações sociais, universidades, comunidades religiosas e instituições democráticas precisam formar alianças para defender a dignidade humana na sociedade digital (cf. MH, nn. 71-72, 180-181 e 241).
Babel e Jerusalém dentro de nós
A encíclica não apresenta Babel e Jerusalém apenas como dois sistemas externos. Essas cidades também começam dentro do coração humano (MH, nn. 130 e 182-184).
Babel aparece quando desejamos dominar, acumular e fazer um nome para nós mesmos. Está presente quando utilizamos as pessoas como instrumentos, buscamos sucesso sem considerar suas consequências e acreditamos que nosso poder não precisa de limites (cf. MH, nn. 7, 92-96 e 130).
Jerusalém começa quando reconhecemos nossa responsabilidade pelos outros. Ela nasce na escuta, na solidariedade, na disposição de trabalhar coletivamente e na coragem de reconstruir aquilo que foi destruído (cf. MH, nn. 8-10 e 241).
Também podemos utilizar as tecnologias segundo essas duas lógicas. Uma rede social pode servir para humilhar uma pessoa ou organizar uma campanha solidária. A inteligência artificial pode ser utilizada para manipular informações ou ampliar o acesso ao conhecimento. Os dados podem servir ao controle comercial ou à criação de políticas públicas capazes de cuidar da população (cf. MH, nn. 100-106, 132-142 e 178-181).
A tecnologia não possui um destino moral independente das pessoas. Ela recebe orientação dos valores, interesses e estruturas sociais que comandam sua criação e uso. Todo artefato técnico incorpora escolhas e prioridades: aquilo que mede, ignora, otimiza ou utiliza para classificar pessoas e situações (MH, n. 104).
Por isso, o discernimento sobre Babel e Jerusalém deve acontecer nas escolhas pessoais, comunitárias e políticas. É necessário perguntar continuamente: esta decisão fortalece o domínio ou a participação? Concentra ou distribui poder? Transforma pessoas em objetos ou reconhece sua dignidade? Protege os vulneráveis ou aumenta sua exclusão? (cf. MH, nn. 85, 90-96 e 104-106).
A missão da Igreja no canteiro de obras
A Igreja não observa esse grande canteiro de obras do lado de fora. Ela faz parte da sociedade e participa de suas contradições. Por isso, é chamada a oferecer os princípios do Evangelho e da Doutrina Social como contribuição para a construção de uma sociedade mais justa (MH, nn. 17-24).
Sua primeira tarefa é escutar. Assim como Neemias escutou o sofrimento do povo, as comunidades cristãs precisam ouvir os trabalhadores atingidos pela automação, as famílias preocupadas com as crianças, as vítimas da desinformação e as populações excluídas do acesso digital (cf. MH, nn. 8, 17-24, 143-156 e 180-181).
A segunda tarefa é formar a consciência. Os cristãos precisam compreender que a tecnologia não é uma questão distante da fé. Ela interfere na dignidade do trabalho, na verdade, na liberdade, na democracia e na paz (cf. MH, nn. 131-181 e 182-228).
A terceira tarefa é promover participação. As comunidades podem organizar encontros, círculos bíblicos, debates e ações coletivas sobre o uso responsável da tecnologia. Também podem apoiar iniciativas de inclusão digital, educação crítica e proteção dos trabalhadores (cf. MH, nn. 143-147, 180-181 e 237-240).
Por fim, a Igreja deve dar testemunho em suas próprias estruturas. Precisa administrar os dados das pessoas com responsabilidade, utilizar as redes de maneira ética, combater a desinformação e garantir que suas formas de comunicação estejam a serviço da comunhão (cf. MH, nn. 86-89, 132-142 e 234-240).
A Igreja contribuirá para reconstruir Jerusalém quando suas comunidades forem espaços de escuta, participação, transparência, acolhida e partilha. Procurar juntos o bem de todos, na corresponsabilidade e na fraternidade, precisa tornar-se uma experiência concreta dentro da própria comunidade eclesial (MH, nn. 86-89).
Que sociedade estamos construindo?
A escolha entre Babel e Jerusalém não acontecerá apenas no futuro. Ela já está presente nas decisões tomadas hoje. Cada algoritmo desenvolvido, cada lei aprovada, cada relação de trabalho organizada e cada mensagem divulgada acrescenta um tijolo ao mundo que estamos construindo (cf. MH, nn. 90-91 e 229).
Babel cresce quando a eficiência vale mais do que a pessoa, o lucro vale mais do que o trabalho e o poder vale mais do que a verdade. Jerusalém é reconstruída quando a economia serve à vida, a tecnologia amplia direitos e as decisões são assumidas coletivamente (cf. MH, nn. 92-96, 148-165 e 229-242).
A Magnifica Humanitas não propõe o abandono das cidades, das máquinas ou das redes digitais. Seu chamado é para que participemos conscientemente da construção. Não podemos entregar o futuro exclusivamente às empresas, aos governos ou aos especialistas (cf. MH, nn. 16, 71-72, 180-181 e 229-241).
Construir Jerusalém significa colocar cada conhecimento, recurso e tecnologia a serviço da dignidade humana. Significa proteger os vulneráveis, distribuir os benefícios da inovação e garantir que ninguém seja descartado (cf. MH, nn. 77-85, 102-106 e 157-165).
A torre de Babel parece grandiosa, mas termina em confusão e dispersão. A reconstrução de Jerusalém é lenta, enfrenta conflitos e depende de muitas mãos, mas recupera os vínculos, a esperança e a vida comunitária (cf. MH, nn. 7-10 e 241-242).
Diante das transformações do nosso tempo, a pergunta permanece aberta para cada pessoa, comunidade, empresa, governo e Igreja:
Que sociedade estamos construindo?
Nossa resposta não será dada apenas pelas palavras, mas pelas obras que escolhermos edificar. Sempre que colocamos o poder acima da dignidade, acrescentamos tijolos à torre de Babel. Sempre que protegemos a vida, promovemos a justiça e trabalhamos juntos pelo bem comum, ajudamos a reconstruir Jerusalém (cf. MH, nn. 229-245).